Nov 8 2007

A filha de uma bipolar

Acho que até agora não contei sobre minha filha né…Quando eu comecei esse blog eu contei minha vida como era antes de eu descobrir que era bipolar, mas nao dei muitos detalhes sobre a minha filha. Na verdade, no começo eu tava muito grilada com medo que alguem que eu conheço descobrisse esse blog e descobrisse todas as loucuras que eu fiz e tal… agora esse medo passou.
Engraçado, é que nem quando você trai pela primeira vez… Uma paranóia danada… depois vai passando, passando, e aí parece a coisa mais normal do mundo.
Bom nem todo mundo que me conhece, principalmente no trabalho sabe que eu sou casada com uma mulher e iam ficar bem chocados tenho certeza…
Entaõ foi assim. Eu conheci um rapaz, me apaixonei, tudo bem normalzinho. Aí com 18 anos eu fiquei grávida. Meus pais e os pais deles foram muito legais e apoiaram totalmente. A gente casou e minha filha nasceu. Eu curti a gravidez bastante. Normal… A primeira… decepção, acho que é a palavra mais certa, foi na hora do parto. Os médicos tiraram a nene da minha barriga e puseram ela no meu colo pra eu ver. Eu tava esperando sentir aquilo que as mulheres sempre falam desse momento… aí eu olhei pra ela… uma gracinha, mas tava toda sujinha e eu nao senti vontade de chorar nem nada. Me culpei depois por ter sido fria nessa hora…
Aí por dois anos eu morei com ela e o meu marido. Eu nao lembro muito bem desse período não sei porque. Simplesmente apaguei da minha memória… pena.
Eu lembro que de repente eu fui mudando. Comecei a me cuidar, emagrecer, ir na academia… E a minha vaidade tomou conta. Eu já não tinha mais paciência pro meu marido nem pra minha filha. Só queria sair e conquistar as pessoas, o que foi ficando cada vez mais fácil e divertido. Em pouco tempo eu me separei.Aí a minha vida mudou radicalmente.
Eu saia toda noite e dormia de dia. Eu levava a minha filha pra escolinha a tarde, voltava pra casa, dormia umas horas (que já me bastavam), pegava ela e deixava na casa de um dos avós pra poder sair. Aí foi aquela fase que eu contei no começo de muita balada e muito sexo…
Eu era bem rígida com a minha filha. Eu nao tinha paciencia pras coisas de criança dela. Eu brigava com ela e nao admitia choro nem manha… hoje eu vejo que eu era um monstro. Coitadinha… Eu não consigo me lembrar do sentimento amor nessa fase.
Aconteceu mais de uma vez de eu estar em casa a tarde dormindo e perder a hora de buscar ela na escolinha… aí a tia ligava porque só tinha ela lá.
Ela era uma criança que morria de medo de fazer alguma coisa errada. Um medo doentio… Era muito preocupada em me agradar… e ela tinha o que, 3,4 anos…De manha eu dava aula de ingles, e ganhava bem até, mas gastava tudo, até o ultimo centavo.
Depois de um tempo veio a depressão. Aí eu parei de trabalhar vendi tudo e voltei pra casa da minha mãe. Outra vez não tinha tempo pra ela. Aí foi a fase do “mundo virtual”. Ficava a noite na internet e o dia dormindo. Minha mãe começou a criar ela então. Graças a Deus.
Uma vez chamaram na escolinha porque ela tinha muito medo de tudo e eu entendi que era minha culpa…
Eu não tinha mesmo idéia de como criar uma criança. E achava que tava muito certa, que ela seria educada assim. Ela era só uma criança.
Passada essa fase da depressão eu passei num concurso em outra cidade, aí minha mãe assumiu a criação dela de vez. Eu vinha só nos fins de semana, mas nem via ela direito.
Eu tive outra fase de mania, então não ligava pra mais ninguem da minha família. Lembra que eu contei qe um dia do nada fui pra Sao Paulo de aviao ver um guri que eu gostava? Então, eu nao avisei a minha mãe. E essa foi uma de muitas. Eu sumia por dias sem ninguem saber onde eu tava. Claro que a minha filha se apegou a minha mãe. Eu nunca tava lá! Eu não sabia nada dela, doenças, notas, amiguinhos, nada. Nem ligava. Engraçado como eu só pensava em mim… Em me divertir e sentir prazer…
Aí passou mais um tempo - tudo que eu contei no começo do blog - e eu caí em depressão de novo. Fui mandada embora - sem ir pra cadeia graças à Deus! - e voltei pra minha cidade. Não dei bola pra ela de novo…
Aí eu saía a noite de novo e comecei a me envolver com pessoas que me faziam mal… Tava me punindo acho… E aí até eu começar a me tratar e abandonei ela de vez.
Quando o tratamento com o lítio começou a minha vida toda mudou. Acho que já falei sobre isso, quando eu comecei a perceber que eu estava começando a sentir afeto e carinho pelas pessoas… começou com a minha família. Acho que a primeira pessoa que eu me dei conta que eu amava foi o meu pai. Depois a minha filha. Foi como se eu tivesse conhecido ela há pouco tempo, e ela já era uma menina tão linda e inteligente e…
Eu fiquei encantada com ela. No começo foi muito confuso porque eu não sabia controlar o medo de perde-la… eu achava que os 5, 6 anos que eu tinha passado “longe” dela eram muito tempo e que iam fazer falta e… Eu comecei a amá-la… foi tão bom…
Eu achava incrível como ela já tava desenvolvendo a personalidade dela, gostos, manias, e como ela se parecia comigo no jeito de agir!
A gente se aproximou então. Eu logo saí da casa da minha mãe então e fui morar com a minha namorada mas eu ia lá pelo menos uma vez por semana. Era muito comparado com antes… Eu comecei a fazer com que o tempo que eu passava com ela fosse especial e agradavel, ao contrario de antes que eu só brigava. Tudo mudou.
Claro que isso tudo aconteceu aos poucos né… Até hoje as coisas só melhoraram. Ela já tem 10 anos, eu ainda moro com a minha namorada e ela com am inha mãe, mas eu vou lá sempre, a gente sai, conversa, estuda…
Ela me admira muito e sempre diz que quer ser como eu… Tadinha se ela soubesse o que eu passei pra chegar até aqui… Ela fala do meu cabelo, que quer deixar o dela igual, fala que se ela fizer uma tatuagem vai ser igual à minha (a do atomo de litio…), fala que a minha letra é bonita minha mão… enfim… ela é muito querida comigo…
Meu Deus, acho que foi um milagre tudo isso ter acontecido e ela ser como ela é hoje. Ela é muito educada!! Ela não pede de tudo como alguns colegas dela, não desobedece normalmente… Minha mãe fez e faz ainda um trabalho maravilhoso com ela. E hoje eu ajudo acho.
Eu penso que eu não tinha a mínima condição de ter um filho por causa da minha doença. Eu tenho coisas demais na minha cabeça e em alguns momentos fica difícil demais se doar. Um filho demanda doação.
Mesmo hoje, se ela tivesse que morar comigo seria possível, mas sei que não seria tão bom pra ela. Tem dias que eu to pra baixo e não consigo falar com ninguem, tem dias que eu to agitada e nao quero ficar em casa… Minha vida não tem rotinas, e acho que rotinas são muito importantes pra crianças na idade dela.
Hoje eu trabalho o dia todo o que é um grande progresso, mas tenho uma banda e a gente toca a noite em dias variados… É uma vida agitada, com pouco tempo.
E fico feliz em ver que  a turbulencia passou e que tudo ficou bem na medida do possível…